

" Hoje é quarta-feira de fogo, mas eu não vejo a hora de chegar a quarta-feira de cinzas.Não, não é que eu seja inimiga do carnaval. Inclusive já brinquei muito: em clubes, nas prévias, nos blocos.... fui até à Olinda em plena terça-feira de carnaval... Portanto, vou falar com conhecimento de causa.(...)"

Segunda-feira:
Criar a partir do feio
Enfeitar o feio
Até o feio seduzir o belo
Terça-feira:
Evitar mentiras meigas
Enfrentar taras obscuras
Amar de pau duro
Quarta-feira:
Magia acima de tudo
Drogas barbitúricos
I Ching
Seitas macabras
O irracional como aceitação do universo
Quinta-feira:
Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção do surdo
Falar com os olhos e as mãos
Como fazem os mudos
Sexta-feira:
Assunto de família:
Melhor fazer as malas
E procurar uma nova
(Só as mães são felizes)
Sábado:
Não adianta desperdiçar sofrimento
Por quem não merece
É como escrever poemas no papel higiênico
E limpar o cu
Com os sentimentos mais nobres
Domingo:
Não pisar em falso
Nem nos formigueiros de domingo
Amar ensina a não ser só
Só fogos de São João no céu sem lua
Mas reparar e não pisar em falso
Nem nas moitas do metrô nos muros
E esquinas sacanas comendo a rua
Porque amar ensina a ser só
Lamente longe por favor
Chore sem fazer barulho
(Cazuza)
Lembro de quando a gente ia comprar pão no fim da tarde – eu ainda criança – e você comprava dois pães de chocolates bem quentinhos pra a gente comer no caminho de volta pra casa e sempre quando a gente chegava em casa minha avó reclamava dizendo que eu ia perder a fome e não iria tomar café mais tarde e você enchia o saco dela até ela tirar aquela cara de brava e sorrir... Dez minutos depois você pegava um pedaço do miolo de pão de sal e dividia comigo dizendo: ‘Aprenda viu: pão bom é pão quentinho!’...
Lembro-me de quando você me levava pra fazenda e pegava o cavalo pra passear comigo e me levar pra tomar banho de rio. Ficávamos lá até estar escuro o bastante pra voltar pra casa. Lembro-me de quando você chegava em casa vindo da farmácia e eu me escondia atrás da porta pra te dar um susto abrindo a porta quando você terminasse de enfiar a chave na fechadura. Você já sabia que eu estava ali, mas ainda assim fingia tomar um choque enorme e eu me acabava de rir de você...
Não poderia imaginar minha vida sem você aqui. Durante tanto tempo você cuidou de mim era avô, pai, amigo, confidente, cúmplice, parceiro pra toda hora! Eu me lembro tão bem de cada segundo ao seu lado... Você sempre cuidou de mim! Hoje, é o contrário, eu cuido de você! Choro cada vez que lembro que não posso mudar essa situação, cada vez que vejo todos que te amam - e eu, que eu amo tanto também - machucados por te ver assim... Tenho um ódio mortal a esse Alzheimer ridículo que faz as pessoas virarem nada, um dependente, um louco!
Ah! Se eu pudesse mudar... Talvez eu devesse pedir perdão por não conseguir ficar mais tanto tempo ao teu lado sem me sentir inútil por te ver inutilizado, mas me falta coragem de encarar os fatos. Parecer forte e confiante é só uma capa pra não desesperar mais ainda quem um dia apostou todas as fichas em mim.
Eu queria só que você soubesse que eu te amo muito! Da mesma maneira que te amava quando era você que cuidava de mim. Mesmo que eu tenha que te dar banho, te limpar, trocar tua roupa, te dar de comer, te dar remédios, fingir que acredito quando você viaja na batatinha, quando você fica agressivo e cospe e morde e bate e belisca e grita e tenta quebrar as coisa tudo isso por causa dessa maldita doença. Eu cuido de você com orgulho porque tenho certeza absoluta que você faria o mesmo por mim.
Sabe vô, me lembrei de quando eu ia pra farmácia ficar contigo e você me dava tinta guache e pinceis e me deixava desenhar toda a parede de ladrilhos que havia lá e deixava por dias aquela pintura ali e dizia com o maior orgulho para seus clientes: ‘Foi minha neta que decorou tudo.’ E quando eu nem sabia escrever ainda e riscava meio mundo de papel dizendo que era recados feitos pra você e você guardava todos com o maior carinho.
Tanta besteira, tantos detalhes... E eu aqui sentindo saudades de tudo isso. Você me ensinou tanto sobre viver... E eu não vejo nenhuma forma de te agradecer. Nada seria o bastante pra dizer o quanto você significa pra mim, o quanto é intensa essa nossa ligação. Hoje eu só queria ao menos poder trocar de lugar com você pra te ter cuidando de mim mais uma vez. Você e minha vó são TUDO pra mim. Se eu perdesse vocês nada mais faria sentido. Estou com muito medo de perder vocês, acho que eu não saberia lidar com isso... Mas ao menos eu vou poder me lembrar sempre do quanto foi importante e maravilhoso tê-los ao meu lado.
(Fernanda Abreu Lopes Paim)

' Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem '
(Senhas - Adriana Calcanhoto)